Autor: Augusto Fontenele

  • Até o STF entra na narrativa de quem quer manter Tarcísio no páreo contra Lula

    Até o STF entra na narrativa de quem quer manter Tarcísio no páreo contra Lula

    Para manter viva a narrativa de uma possível desistência da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, são usados rumores e boatos que continuam circulando nos bastidores da direita. O último, sem confirmação nenhuma, é a informação de que haveria uma tentativa de acordo com o STF para que seja concedida prisão domiciliar ao ex-presidente Bolsonaro em troca da desistência da candidatura de Flávio Bolsonaro, seu filho.

    As negociações envolveriam a ex-primeira-dama Michelle e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

    Além de boatos, esses rumores fortalecem um sentimento, em certos setores da direita, de que o STF — que, na prática, não tem se mostrado muito favorável a Bolsonaro — seria talvez a última oportunidade de fazer Flávio desistir da candidatura a presidente. Quer dizer: na percepção desses grupos, o alívio da situação do pai seria a única forma de fazer o filho desistir da candidatura.

    Digo isso porque Flávio não demonstra nenhuma intenção de desistir. Muito pelo contrário, seu último vídeo publicado na internet o coloca como o candidato que pode unir a direita.

    Não precisa entender muito de política para perceber que uma candidatura ligada diretamente à família Bolsonaro é a forma mais segura de manter a sobrevivência do grupo político. O bolsonarismo já demonstrou desconfiança em Tarcísio, ou em qualquer outro candidato de centro-direita que não esteja organicamente ligado ao grupo.

    Eles sabem que o sonho de setores da mídia, do Centrão e do mercado financeiro — grandes patrocinadores desse tipo de solução — é um candidato de direita que passe muito longe do extremo dos Bolsonaros. Sonham com um candidato moderado, institucional e equilibrado em suas ações e, o mais importante, que coloque a pauta liberal na frente.

    Por isso, a candidatura de Flávio não é necessariamente para ganhar a eleição, embora isso não deixe de ser o objetivo (junto poderia vir o perdão presidencial ao pai), mas para garantir a eleição de um grupo sólido de parlamentares e até governadores íntimos e leais, como aconteceu em 2022, quando, mesmo perdendo, Bolsonaro garantiu uma bancada fiel.

    Por enquanto, querendo ou não, os votos estão, de um lado, no bolsonarismo e, do outro, no Lula/petistas. A “terceira via”, um candidato de centro, sem eleitores para uma campanha presidencial, continua sendo um sonho distante.

  • Trump é a verdadeira face do cultuado “Sonho Americano”

    Trump é a verdadeira face do cultuado “Sonho Americano”

    Muitos analistas colocam Trump apenas como sintoma de uma América empobrecida, com seu poder econômico e militar relativos no atual jogo mundial.

    Mas a verdade é outra: Trump não é apenas um condutor de ocasião, ele é o próprio país. As “loucuras” tarifárias e o uso ilimitado do poder bélico para tomar o que quer — custe o que custar, como na Venezuela — são apenas a reedição do “Sonho Americano”.

    Esse sonho, vendido ao mundo, sempre foi instrumento de poder. As promessas proteladas de liberdade, civilidade e progresso serviram apenas como justificativa externa para uma elite que sempre lucrou com intervenções nada civilizatórias.

    Agora, encurralada por uma nova ordem mundial, a força bruta é seu último refúgio (é assim que caem os impérios). A lógica assombrosa de Trump na TV, ao admitir que se apoderou do petróleo venezuelano, é a nova tônica, agora sem disfarces, desse “sonho civilizatório”.

    Tudo com o consentimento disfarçado das instituições. O Judiciário e o Congresso observaram passivamente Trump menosprezar a lei e os ritos do cargo.

    Assim, a queda de popularidade de Trump não é discordância com seus métodos, mas com os resultados: inflação, falta de produtos e a destruição da agricultura familiar.

    O consenso dos analistas sérios é que não tem volta. Mesmo que os resultados econômicos pífios e o isolamento político deem um choque de realidade interno, o estrago está feito.

    A queda contínua do Dólar pós-Venezuela e a entrada da União Europeia na América do Sul, desafiando o quintal americano, são sinais de impactos significativos e de difícil reversão. O Império já não é e não será o mesmo.

  • A IMPERFEIÇÃO DA IA NA  BUSCA DESESPERADA DE SER PERFEITA

    A IMPERFEIÇÃO DA IA NA BUSCA DESESPERADA DE SER PERFEITA


    O medo e a previsão catastrófica inicial eram de que os vídeos produzidos por Inteligências Artificiais, ao se tornarem assustadoramente reais, permitiriam um nível de manipulação da realidade nunca antes alcançados.

    No entanto, o que observamos nas redes sociais é o oposto, o descredito geral.

    Vídeos que apresentam algo inusitado — como crianças cantando ou salvamentos milagrosos — são prontamente rotulados como “IA” nos comentários, mesmo quando são autênticos. A mentira tornou-se a suspeita padrão e a verdade, a exceção.

    O fenômeno é intrigante, pois quanto mais “perfeita” é a criação da IA, menos credibilidade ela possui.

    Análises de comportamento em redes sociais, processadas a partir de grandes volumes de dados (Big Data) em plataformas como TikTok e Instagram, demonstram que o público desconfia cada vez mais do “perfeito demais”, classificando-o como falso.

    Historicamente, o valor da imagem como prova da verdade sempre existiu, mas com nuances distintas. Inicialmente, a fotografia trouxe uma expectativa contrária ao atual descrédito da IA: a promessa da verdade documentada.

    Antes dela, a imagem era domínio da pintura realista, muitas vezes encomendada por líderes para retratar o que lhes convinha. A foto prometia um processo mecânico, a impressão da luz no filme, teoricamente sem a interferência subjetiva do olhar do pintor.

    Contudo, logo se percebeu que nem a lente nem a revelação eram neutras. A realidade era moldada pelo enquadramento ou por alterações físicas no negativo. Stalin elevou isso a estratégia de Estado, apagando rivais de fotos oficiais para reescrever a história.

    Para garantir a fidelidade, passou-se a exigir o que é externo à imagem: a credibilidade da fonte e seu interesse.

    A Segunda Guerra Mundial expôs isso brutalmente. Documentários alemães mostravam uma vitória iminente, enquanto o governo americano editava filmes para exibir uma guerra “limpa”. O documentário de John Huston, “The Battle of San Pietro”, chegou a ser censurado por ser “verdadeiro demais”, mostrando a crueza da morte que o Estado queria omitir.

    Agora, com o aperfeiçoamento constante, que pode tornar os vídeos de IAs em “amadoristicamente reais” para burlar o crivo da perfeição técnica, somos forçados a retornar à origem: quem produziu a mídia e qual seu interesse?

    Hoje, não há mais a tranquilidade de antes ao consumir grandes veículos de imprensa, apesar de suas conhecidas inclinações políticas. Com a polarização e a fragmentação da internet, separar o joio do trigo tornou-se um desafio hercúleo.

    Resta-nos confiar na história, que nos mostra que sempre encontramos formas de nos defender, ainda que às duras penas, das manipulações. Esperemos que, desta vez, a história não nos falte.

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  • A CLASSE MÉDIA NO CASSINO: TROCAMOS O SONHO DA EMPRESA PRÓPRIA PELA ILUSÃO DA RIQUEZA NA BOLSA

    A CLASSE MÉDIA NO CASSINO: TROCAMOS O SONHO DA EMPRESA PRÓPRIA PELA ILUSÃO DA RIQUEZA NA BOLSA

    Houve um tempo em que o objetivo da classe média brasileira era claro: abrir o próprio negócio. O sonho de subir na vida passava pelo empreendedorismo real, por construir algo concreto e deixar de ser empregado para se tornar patrão. Hoje, esse desejo de liberdade foi sequestrado pela miragem do mercado financeiro.

    O que vemos agora é uma mutação perigosa. O ídolo do jovem e do pai de família não é mais o construtor, mas o especulador de app. Desiludida com o trabalho rotineiro e a baixa renda, a classe média foi convencida de que o atalho para a riqueza é a jogatina das apostas e do investimento especulativo. Trocamos a mentalidade de produção por uma cultura de cassino, queimando reservas em um país que parou de fabricar oportunidades.

    Nos últimos 30 anos, independentemente de esquerda ou direita, o Brasil não rompeu com a desindustrialização. O problema é de Estado, não de governo. Falta um projeto de soberania tecnológica que sobreviva ao próximo ciclo eleitoral. Enquanto não discutirmos isso de forma séria e sem lados, o impasse continua.

    Os Estados Unidos souberam lucrar com esse modelo enquanto detinham o monopólio da moeda global, mas o cenário mudou. Após décadas ganhando com o rentismo e a exportação de suas fábricas, eles agora pagam o preço da dependência externa e do desemprego estrutural. Não à toa, o governo americano hoje injeta centenas de bilhões para recuperar a fronteira tecnológica que negligenciou.

    Enquanto isso, Coreia do Sul e China mostram o caminho. A Coreia não enriqueceu com especulação, mas forçando a transferência de tecnologia e investindo quase 5% do PIB em inovação. No Brasil, preferimos torrar o capital pagando os juros mais altos do mundo para sustentar o rentismo.

    O sistema trabalha contra nós. É uma economia de freio de mão puxado: quando a população consome, o sistema sobe os juros para proteger quem vive de renda. Retira-se dinheiro da produção para alimentar o topo da pirâmide, deixando o Estado sem fôlego para incentivar qualquer industrialização moderna.

    Nenhum país se desenvolve movimentando números em uma tela. Sem um projeto que resgate o valor da produção e da tecnologia, continuaremos sendo apenas um grande cassino de juros altos, onde a classe média aposta suas esperanças enquanto o verdadeiro desenvolvimento desaparece no horizonte.